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sábado, 15 de novembro de 2008

Poemas do Irremediavel (XXVIII)


Não só duas vezes,

muito mais é certo

eu fui enganado.



Ausência de voz,

ausência de gesto

do ser esperado...



Nenhum desespero

marcou minha face,

diante do fado.



Sozinho ficava

aparentemente

frio, inalterado.



Sem ter companhia

eu me libertava

de todo pecado.



Podia, sem susto,

olhar para dentro,

livre, despojado,



sem remorsos, sem

o arrependimento

do ato realizado...

sábado, 8 de novembro de 2008

Poemas do Irremediavel (XXVI)


Vieste com a noite, e a mesma manhã te levou.

Tinha pés de sombra quando chegaste:

só um pássaro violou o ar de que partiste.



Entre a chegada e o adeus havia luz:

a cintilação fria das estrelas,

o quase fulgor do nascer do dia.



Vieste com a noite e a manhã te levou,

criamos um mundo como deuses:

mas o real que foi assim construído,

tomou diante dos olhos surpresos,

novas formas, tentou pela desordem

da emoção, a inconsciência do perfeito.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Poemas do Irremediavel (X)


A mesma pele morena,

a mesma voz fluvial

o mesmo gesto ao falar,

o mesmo andar musical...



O mesmo gosto no beijo,

a mesma ânsia nos passos,

o mesmo bosque na face,

a mesma paz nos abraços.



As mesmas vagas desculpas,

as mesmas verdades puras,

as mesmas raras mentiras,

as mesmas claras loucuras.



A mesma infância ao dormir,

o mesmo ser se escondendo,

o mesmo rosto em meu peito,

a mesma aurora acendendo.



O mesmo corpo em meu corpo,

a mesma amarga doçura.

As mesmas mãos me tocando,

o mesmo cais de ternura.



O mesmo campo de mágoas,

a mesma grande ventura,

a mesma frescura d´água,

o mesmo calor de pão.

Imagem: Norbert Guthier

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Poemas do Irremediavel (IV)



Fora de mim

estes outros limites:

Os outros e o mundo.

Talvez isso justifique

essa evasão:

a existência de uma força

que seja começo e fim,

fundamental monossílabo.

Talvez isso justifique,

essa essência ilimitada

só aceita pelo mundo

com minha forma e a dos outros.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Poemas do Irremediavel (XXVI)



Vieste com a noite, e a mesma manhã te levou.

Tinha pés de sombra quando chegaste:

só um pássaro violou o ar de que partiste.



Entre a chegada e o adeus havia luz:

a cintilação fria das estrelas,

o quase fulgor do nascer do dia.



Vieste com a noite e a manhã te levou,

criamos um mundo como deuses:

mas o real que foi assim construído,

tomou diante dos olhos surpresos,

novas formas, tentou pela desordem

da emoção, a inconsciência do perfeito.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Poemas do Irremediavel (II)




Vivo como se andasse

me afogando,

e onde estiver, aí,

será mar alto,

e eu sempre mais só, desesperado,

a buscar entre ondas,

uma de apego,

exílio e salvamento:

durante os dias, espero as noites,

a fumaça de barcos, um sinal.

Mas há as noites — oh horror

das noites —

intermináveis no ar sem sono,

onde um farol,

(uma estrela houvesse)

apenas iluminariam

o medo de me perder

por me salvar:

como esperar um braço

quando o mar é grama

para o vento,

ou eco dos ecos?

Mesmo que um braço me fosse estendido

já não haveria

porto...