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sábado, 9 de maio de 2009

O avesso e o direito.2


Sei que, agora, vou escrever!
Chega um tempo em que a árvore, depois de ter sofrido muito, deve dar os seus frutos. Cada Inverno termina com uma Primavera. Preciso de testemunhar. Depois o ciclo recomeçará.
Apenas falarei do meu amor pela vida. Mas à minha maneira…
Outros escrevem por tentações opostas. E cada decepção das suas vidas dá azo a uma obra de arte, mentira urdida com a mentira das suas vidas. Mas os meus escritos sairão das minhas horas de felicidade. Mesmo naquilo que eles tiverem de cruel. Preciso de escrever, assim como preciso de respirar, porque o corpo mo exige.
Longe da questão fútil da imortalidade, aquilo que me interessa é, de facto, o nosso destino. Mas não “depois”, “antes”.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

O avesso e o direito 1...


Sei que a minha fonte está no avesso e no direito, nesse mundo de pobreza e de luz em que vivi durante tanto tempo, e cuja lembrança me preserva, ainda, dos dois perigos contrários que ameaçam todo o artista: o ressentimento e a satisfação.
A miséria impediu-me de acreditar que tudo vai bem sob o sol e, na história, o sol ensinou-me que a história não é tudo. Mudar a vida, sim, mas não o mundo do qual eu fazia a minha divindade.
Assim foi, sem dúvida, que abordei essa carreira desconfortável em que me encontro, enfrentando com inocência uma corda bamba, na qual avanço com dificuldade, sem estar seguro de alcançar a outra ponta. Dito de outra maneira, tornei-me um artista, se é verdade que não há arte sem recusa nem consentimento.

Posso dizer, e vou dizê-lo daqui a pouco, que o que conta é ser humano e simples. Não! O que conta é ser verdadeiro, e, então, tudo se inscreve nisso: a humanidade e a simplicidade.
E, então, quando sou mais verdadeiro que quando estou no mundo? Sou presenteado antes de ser desejado. A eternidade está ali; e eu espero por ela. Agora, não desejo mais ser feliz, mas apenas estar consciente.

segunda-feira, 4 de maio de 2009


" Nasce então a estranha alegria que nos ajuda a viver e a morrer e que, de agora em diante, não recusamos a adiar para mais tarde. Na terra dolorosa, ela é o joio inesgotável, o amargo alimento, o vento forte que vem dos mares, a antiga e a nova aurora. "

In:Do mar bem perto

quinta-feira, 2 de abril de 2009


“Penso agora em flores, sorrisos, desejo de mulher, e compreendo que todo o meu horror de morrer está contido em meu ciúme de vida. Sinto ciúme daqueles que virão e para os quais as flores e o desejo de mulher terão todo o seu sentido de carne e de sangue. Sou invejoso porque amo demais a vida para não ser egoísta...
Quero suportar minha lucidez até o fim e contemplar minha morte com toda a exuberância de meu ciúme e de meu horror”.