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sexta-feira, 27 de junho de 2008

Como entrou no céu o primeiro advogado


Barão de Itararé
Do livro Máximas e Mínimas do Barão de Itararé. Rio de Janeiro, 1985.


Logo que Santo Ivo morreu, encaminhou-se ao Céu e bateu à porta, que São Pedro não se atreveu a abrir, subestimando as razões do bom santo.

- Faço o que quiseres - repetia o porteiro do Céu -, mas não acho que deva permitir a entrada a um advogado, não só porque nem um tem assento entre os santos, mas também porque; muito ao contrário, juraria que se encontram no inferno todos os de tua profissão.

Santo Ivo não se desconcertou; antes, como bom advogado, teve tão convincentes razões para rebater as de São Pedro que este lhe permitiu finalmente entrar no Céu, mas com a condição de permanecer junto à porta.

O hóspede entrou calmamente, sentou-se no lugar indicado por São Pedro, que foi participar a Nosso Senhor o sucedido...

- Fizeste mal! Muito mal, Pedro! - respondeu Deus, quando acabou de escutá-lo.
- Havia resolvido que nenhum advogado entraria no Céu, e tinha cá minhas razões para isso. Mas já que está, deixa ficar; sem embargo, não deixes que ele se misture com os outros santos, pois do contrário acabarão no Céu a paz e a boa harmonia. Não o deixes passar além da porta.

Aborrecido e cabisbaixo, voltou São Pedro aonde estava Santo Ivo e comunicou-lhe as ordens dadas pelo Senhor. O Santo advogado encolheu os ombros e, à guisa de passatempo, começou a entabular conversa com São Pedro.

- Que posto ocupas aqui no Céu?
- Não sabes? Sou o porteiro.
- Por quanto tempo?
- Para todo o sempre.
- Deixa disso. Só se tiveres algum contrato firmado...
- Não há contrato nem coisa que o valha, e para dizer a verdade não há necessidade disso.
- Como assim? Então não estás vendo, grande ingênuo, que qualquer dia Deus pode ter a idéia de te destituir, sem mais nem menos, do cargo que com zelo vens desempenhando há tanto tempo, sem que possas fazer valer teus direitos?

São Pedro coçou a orelha, e, mais amofinado que antes, foi novamente falar com Deus.

- Vamos lá, que é que pensas?
- Preciso de um contrato em que se declare que sou o porteiro do Céu para todo o sempre. Até hoje temos deixado as coisas andar à vontade; mas se vos der na idéia, qualquer dia me destituís do cargo que com tanto zelo...
- Não te dizia eu? Tudo isso são trapaças daquele advogadozinho que tens na porta e que soube encher-te a cabeça.

E ajuntou depois, tomando uma resolução:

- Anda, Pedro, corre e manda-o entrar imediatamente, pois prefiro tê-lo perto de mim a vê-lo junto à porta.

Eis como entrou no Céu o primeiro advogado.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Para meu "Gêmulo" com todo meu amor...

Hoje dia três de Dezembro nasceu a 32 anos atrás uma "criatura" que, como se diz por ai... se não tivesse nascido...bem! o resto vocês sabem!
Por isso dedico a ele, já que ainda não lhe dei o presente, só os "meus parabéns!", o texto a seguir...que é de autoria do
Barão de Itararé, seu nome e: Propaganda Realista.
E pra quem conhece tem tudo haver com essa criança que TODO MUNDO SABE é FÃ DE HERODES! rs





Os poetas celibatários fizeram uma frase, que é repetida com entusiasmo pelos casais sem filhos:

— A criança é a alegria do lar.

Mas não é.
A criança poderia ser, de fato, a satisfação de seus pais nos seguintes casos concretos, mesmo assim sujeitos a discussão:
1) quando não chora;
2) quando não faz sujeiras, e
3) quando está quieta.
Ora, todas as crianças choram por dá cá aquela palha. Todas as crianças cometem inconveniências de hora em hora, e todas as crianças normais têm bicho-carpinteiro. Logo, numa casa com crianças fungando, molhadas e irrequietas não pode haver tranquilidade.
Uma criança que não chora, porém, é para os pais uma constante preocupação. Uma criança que não suja as calcinhas é uma coisa alarmante, que exige um purgativo. Uma criança sossegada deve estar, com certeza, doente.
Em qualquer uma dessas três hipóteses, a criança é uma tortura para um pai extremoso e, sem receio de errar, pode-se dizer que uma criança quieta é sempre motivo para inquietação dos senhores genitores.
Uma criança que chora preocupa muito os pais, mas quando não chora preocupa muito mais.
Há, portanto, uma inverdade na frase dos poetas solteirões, quando afirmam que a criança é a alegria do lar. Trata-se de uma falsa propaganda, que necessita ser em tempo corrigida, em benefício da conservação da espécie e do povoamento do solo.
Apesar de todas as choradeiras e de todas as inconveniências, nós devemos ser sinceros amigos das crianças, lembrando-nos que nós também já demos muito trabalho a quem nos criou.
Mas o nosso entusiasmo pelo desenvolvimento da natalidade não nos deve levar ao extremo de afirmar que as crianças são umas gracinhas, porque isso seria ilaquear a boa fé dos candidatos inexperientes à paternidade.
Em vez de uma propaganda mentirosa, que levará o freguês, mais cedo ou mais tarde, a uma terrível desilusão, é mais conveniente dizer toda a verdade.
O moço que se casa deve, portanto, saber, antes de tudo, que lhe será muito difícil, nos dias que correm, ser uma boa mãe de família. (1945)


Retirei do livro “Máximas e Mínimas do Barão de Itararé”.